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domingo, 28 de agosto de 2011

Capítulo 14


Aventurando nos Campos do Senhor

  Naquela época eu me dividia entre Cumari, Anhanguera e Fazenda Dourados, de bicicleta! O irmão João dos Santos, Antônio Calaça, Natal Teresa... Eram meus companheiros de viagem...
  Naquele tempo bicicleta era coisa rara! Um dia um irmão fazendeiro foi a Cumari fazer compras e no caminho, furou o pneu da bicicleta dele, e em Cumari não tinha borracharia, só o Sr Basílio remendava, e ele tinha viajado.  Então o irmão foi na minha casa e tomou minha bicicleta emprestada até no outro dia.  Foi para sua fazenda levando: querosene, açúcar, sabão, café, um saco de sal de trinta quilos.   Quando foi descer para a sua casa, tinha uma descida longa e ele não sabia que a minha bicicleta estava muito ruim de freios.  Lá se foi ele correndo, quando quis parar, foi tarde, o freio não obedeceu... Marcou o mourão da porteira com a roda da frente que acabou ficando junto com a de trás, quebrou tudo, esparramou a mercadoria e ele ficou todo esfolado...
  Arrumei outra bicicleta, ou melhor, montei pedaço de uma, pedaço de outra que eu trocava com o Zé Bonitão.
   Um dia, vínhamos dos Dourados, eu e o irmão Natal, andávamos no escuro, eu não tinha lanterna, quando relampejava eu achava bom, pois clareava a estrada, mas naquele dia não estava chovendo e nós estávamos uma carga com cerca de 60 laranjas baianas, que havíamos ganhado dos irmãos, num saco na garupa.
Chegando ao Córrego da Cerâmica, estava escuro demais, não tínhamos nem lanterna.  Eu vinha pela direita e o irmão Natal pela esquerda, nos conversando e correndo... De repente foi aquele barulhão! Uma senhora batida, vinha um bicicleteiro de Cumari em direção contrária a nossa, e não se viram, trombaram feio! O irmão Natal passou por baixo da cerca de arame e caiu dentro do Córrego!
__ Ai, ai!
__ O que foi isto?
__ Não sei, eu furei o beiço!
  No escuro não dava pra saber quem tinha machucado ou o que tinha acontecido... Então chegou um cavaleiro tio do que havia machucado o beiço, Sr. José Florentino ele era gago! E disse:
__ O que que que é isto ai? – continuou – o o oceis pri pri pricisa carregá uma luis!
  Acendeu um isqueiro e vimos o desastre, a bicicleta do rapaz havia quebrado ao meio, e ele estava com o beiço furado dava para ver os dentes.
__ Vamos voltar – disse eu – vamos à farmácia, o Tunico (farmacêutico) vai dar um jeito nisto.
  Ele não quis, assim levei a bicicleta dele para arrumar e ele foi embora com o tio.
  Outro dia vinha voltando da fazenda Dourados e no meio do caminho na Chácara da Cerâmica, do irmão Zequinha Florisbelo as vacas estavam deitadas no meio da estrada e eu não as vi e caí em cima delas os bois e vacas saíram correndo e eu fiquei rindo sozinho...
  O tempo passou e eu havia agora ganhado uma lanterna boa do irmão José Farias que tinha mudado para Cumari a fim de trabalhar no Batalhão Mauá, mas vinha economizando pilha já que era bem distante a fazenda da cidade.
  Andava Morro acima no Mamparra, quando senti um cheiro forte de mofo, rabuja e alguém havia me dito que onça fede ovo podre, gorado.  Acendi a lanterna que iluminou bem na onça que estava parada bem no meio da estrada de frente para mim, eu dei um grito que ecoou na mata, ela deu um pulo e correu pro meio da mata, e eu freei a bicicleta, parei e pensei em voltar, mas pensei não posso volta porque a Sônia vai incomodar, então fiz uma oração, voltei um pouco atrás, embalei a bicicleta, e subi.  Foi à única vez que eu subi o Mamparra montado.  Cheguei à casa a Silsa era criança, chorou de tanto rir, pois até meu bigode estava arrepiado, onde não tinha cabelo arrepiou também e fiquei assim por uns três dias.
  Depois disso o irmão Antero deu faróis para a minha bicicleta, os tais dínamos, que não iluminavam na subida, mas que já melhorou muito a minha caminhada.

A Xispa abençoada

  Anos depois o Pastor me presenteou com uma vespa, mas a coitada não agüentou a jornada e após um tombo acabei devolvendo e voltando para minha bicicleta suruana.
  O irmão Wilsom, que Deus continue  oabençoando, mudou-se de Araguari para Cumari e começou a andar comigo nas congregações e vendo minha dificuldade nas estradas disse:
__Irmão Pedro eu vou te dar uma Xispa, não tem condições do senhor viver essa vida desse jeito...
  Comprou e trouxe e me disse:
__É sua, comprei com o dinheiro do dízimo de uma grande empreitada...
__Então vamos por no nome da Igreja pois havia sido comprada com o dinheiro do Senhor e assim fizemos.
  A Xispa, é um tipo de moto antiga que parecia uma formiga cabeçuda, mas oh Xispa boa! Andei nela por oito anos!
 Depois de alguns anos eu estava só, voltando da Fazenda Dourados após um culto abençoado, a estrada estava limpa e boa.  Mas na estrada do Córrego do Sr. José Agapito, depois que eu passei, a prefeitura havia despejado dois caminhões de cascalho para arrumar a estrada e como a Xispa estava com o farol fraco, não vi os montes de cascalho e capotei a Xispa, tomei um tombo de matar, mas nada me aconteceu só a Xispa que empenou os dois amortecedores dianteiros, e cheguei em casa vermelho de terra.


Pastor Pedro Lourenço na Xispa doada pelo irmão Wilson

   Na Fazenda Gueiroba eu e o irmão Antonio Calaça na garupa, a xispa derrapou e batemos na porteira... Que belo tombo!
   Num dia chuvoso o Córrego do Sr. Jose Agapito encheu e eu não tive como atravessar, voltei até a fazenda do Sr. Manoel Caetano (irmã Eva)  e passei pela estrada do cemitério, caí num poço de enxurrada e molhei tudo, a xispa apagou e agora?
 Fiz uma oração peguei a lanterna enxuguei o platinado dei a partida,ela pegou e eu sai daquele lamaçal... cheguei em casa todo lameado...
   Muitas vezes eu simplesmente caía nos mata-burros e esfolava, não sei se ela caía comigo ou se eu caía de cima dela... Quando via estava no chão e joelho infeccionando. O Morro Mamparra é uma serra bem grande com mata nativa, e todos diziam que era assombrada! Um dia voltando do culto, uma noite chuvosa, e escura, vi um grande clarão no meio da estrada, pensei será que vou ver Deus no meio da sarça ardente ou vou ver o trem ruim? Encostei a xispa no barranco da estrada e entrei mato adentro o cabelo arrepiou todo, e fui chegando devagar cada vez mais perto, até que pude contemplar o assombração: Era uma grande teia de aranha que tinha molhado com a chuva e 27 vagalumes havia pregado nela, com o reflexo da luz dos vagalumes e gotinhas d’água, parecia uma grande labareda de fogo... Passei tanto medo à toa!
  Às vezes íamos de carrinho de cavalo emprestado do meu pai para arrecadar donativos para as obras assistenciais da igreja.





Eu e o irmão  que emprestou a carroça...

  De vez em quando fazíamos caravana no caminhão do Sr. Chicão e Antônio de Avelar levando toda congregação de Cumari para realizarmos cultos e batismos na fazenda Dourados.
 Nessas ocasiões o Pastor Eurípedes levava a banda e vários outros irmãos, e fazíamos o culto na serraria.

A ponte, o rio, os peixes
  Muitas vezes a ponte rodava nas enchentes fazíamos uma pinguela e atravessávamos o rio cheio para a igrejinha e também fazíamos culto na casa do irmão Valdemar. E muitas vezes íamos lá só por diversão pescar com os meninos da irmã Fátima e com minha família.


 Fazenda Dourados – à esquerda casa do irmão Valdemar e no fundo a sede


Ponte que muitas vezes rodou com a chuva

Poços cheios de peixes; mandis...

Caminho da água pelas pedras

Eu: Pedro Lourenço olhando o local onde e eu muitas vezes pesquei com os filhos do irmão Sebastião Izídio e logo após a irmã Fátima fritava para nós jantarmos...


Minha esposa Sônia e minha primeira neta Hadassa se divertindo!




quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Capítulo 13


 Um novo caminhar
  No final de três meses, que eu estava no Ministério da Assembléia de Deus, o Pastor Antero estava passando muitas lutas com filhos doentes, no hospital em Catalão, e eu dirigia os cultos para ele, em Cumari e também na fazenda Dourados, tinha unido conosco alguns irmãos de outra denominação e o Pastor Antero emprestou-me sua bicicleta e disse:
__ Vai lá aos Dourados e dirige um culto para mim.
  Eu fui, e os irmãos gostaram do culto e disseram que precisavam de mais cultos ali, eu disse a eles que ia falar com o pastor e se ele deixasse, eu ia voltar e dirigir cultos ali toda semana.
  Na segunda-feira, tornei a pegar a bicicleta do pastor Antero que eu pensava ainda estar em Catalão e ia para os Dourados, quando passei na porta da casa dele, ele me chamou e disse:
__ Onde você pensa que vai irmão?
__ Pensei de ir aos Dourados... respondi
__ Não – disse ele - O Pastor Eurípedes vem aí e quer falar com você.
__ uepa! Será que ele está triste comigo? – perguntei
__ Não é outra coisa.  Eu vou embora – disse-me ele.
  Entreguei então a bicicleta dele e fui para casa.  À noite fomos para a igreja o pastor dirigiu o culto normalmente e no final do culto, pegou a chave e falou sobre a mudança do obreiro.
  Terminado o culto fomos para minha casa: o Pastor Eurípedes, o irmão Delson, o vice - presidente na época Antônio Rodrigues, e começamos a conversar, tomamos café coisa e tal... Uma hora da manhã, eu falei:
__ Pastor Eurípedes, o Senhor quer me falar alguma coisa, mas está sem jeito para dizer, mas eu sei o que é que é.
__ Sabe então fala – disse ele.
__ O Senhor quer me dizer que quer que eu fique dirigindo a igreja, mas como um membro...
__ Sim – disse ele – é isto mesmo.
__ Eu já sabia – disse eu – um profeta falou comigo, e Deus disse que minha credencial não é de papel, mas de espírito.
__ Você não vai ficar triste com isto? – perguntou-me ele
__Não – disse eu.
__ Então aqui está à chave, você fica dirigindo por uns dias até eu mandar outro obreiro.
  Fizemos uma oração e eles foram embora de Pastor Ordenado com credencial vinda dos Estados Unidos na Igreja de Deus no Brasil fui a membro da Assembléia de Deus...


Pedro Antônio Lourenço da Silva Membro da Igreja Evangélica Assembléia de Deus

Confirmação da vontade de Deus
  Um certo dia sonhei que o pastor Eurípedes havia nos levado para dar uma volta no céu.  Ele seguia a frente, logo após vinham: eu, o irmão José Florisbelo (Zequinha) e meu irmão Braz Lourenço. 
   Quando íamos entrando no céu um anjo estendeu suas mãos e me cercou, sua roupa era branca e brilhava e disse-me apontando para o Pastor Eurípedes:
__ Se você quiser ser salvo segue este homem, ele é o anjo da igreja.
  È para mim difícil descrever a beleza do que vi no céu: a harmonia, a música, a paz...  Mas logo o anjo disse que devíamos ir até o inferno e alertou:
__ Não compre nada ali.
  No inferno o cheiro é desagradável, vi fogo e água fervente com cinzas e vi ali também um pastor de renome das Assembléias de Deus com uma banca de revistas, meu irmão Braz comprou uma revista e queria me dar eu não quis e ele jogou-a fora.
  Acordei sobressaltado se por um lado eu tinha agora a certeza do caminho que eu devia seguir, por outro lado estava preocupado com o que iria acontecer.  Contei o sonho ao meu pastor e ele me disse que o tempo mostraria a realidade do que vi.   Anos depois o pastor que eu havia visto no inferno com a banca de revistas, levou a casa publicadora das assembléias de Deus a falência, não sei se ele se arrependeu, ou se como no meu sonho um dia irá montar sua banca no inferno.

Capítulo 12


A mudança
  Após alguns anos o Pastor Presidente da Assembléia de Deus, Eurípedes Pereira de Sousa, enviou o Pastor Antero dos Santos para fundar uma igreja em Cumari. 
   E veio um desejo de ir para lá assistir a aqueles cultos abençoados, mas não fazíamos nada sem consultar a vontade do Senhor.  Naquele dia era culto de oração na Igreja de Deus, e então apresentei a Deus o que estava no meu coração, mas ninguém sabia de nada.  Logo Deus usou o profeta João Nunes de Oliveira, ele pôs a mão na minha cabeça e disse:
__ Meu servo, o que está no seu coração, fui eu quem pôs, se você for eu te abençoarei.
  Naquela hora, eu pensei na minha credencial de Pastor vinda dos Estados Unidos... Deus tomou novamente o profeta e disse:
__ Já te disse que se você for eu te abençôo, sua credencial não é de papel, mas de espírito, vai que eu te abençôo.
   Então conversei com a Pastora Orsila que apesar de não gostar nos abençoou na saída e fomos em paz.  Não perdemos o contato ela sempre ia a minha casa e eu a dela, pregávamos em Cultos ao ar livre, as igrejas juntas, ministérios unidos.
    Minha esposa e as senhoras da igreja ajudaram ela a cumprir um voto fazendo cultos ao ar livre juntas em cada esquina da cidade...  Sempre que ia a Cumari a visitava, a tratava com admiração e respeito que merece uma pioneira.
 

sábado, 6 de agosto de 2011

Capítulo 11


O casamento

   Botina com o solado furado, quase sem estudos, sem profissão, com trinta e um anos resolvi me casar.  Não tinha nada, havia vendido minhas últimas 13 novilhas, mas resolvi fazer uma casa, comprei u lote que antes era um campinho de futebol, do Sr. Eliseu que havia ficado responsável para vender para o Sr. Lamartine.    
   Agora eu precisava de tijolos, espalhei a notícia eu pagava por tijolos... Quando eu chegava do serviço à meninada estava cada um com seus montões, meio tijolo, tijolo inteiro... Cada um tinha seu preço... Fui assim comprando tijolos, até que o Lázaro meu irmão apelou e me deu 500 tijolinhos.
  Assim comecei minha primeira casa, lá na colina, como dizia a pastora Orsila.  Perto de casar ganhei a madeira do Sr. Cármino Silva (Seu Balico), eu e meu pai tiramos a madeira e cascamos, o irmão João Nunes lavrou as  vigotas a machado, e o José do tio Vergílio me deu a serração das torinhas e ganhei do Sr. Antônio Jorge todas as portas e janelas. Reboquei a casa já descalço, eu não podia comprar lonas novas... Mas estava feliz e o povo já podia ver a casa do Pedão. Fui almoçar na minha mãe e na volta para a construção em frente a casa do Sr. José Batainha encontrei um par de botina mateirona, estava furada no solado mas eu peguei assim mesmo... 
  Chegando à construção a lavei bem e pus em cima da varanda, mais tarde os irmãos José Justino e Itamar foram me visitar e eu mais do que depressa pedi:
__Zé você vai arrumar minha botina e é de graça!
 Ele pegou uma delas deu uma olhada e disse:
__  Ah irmão Pedro ta muito ruim não tem conserto não...
__ Tem – insisti – você põe uma palmilha por dentro e uma meia sola bruta por fora, ela vai ficar nova...
   Assim ele fez, ficou bem pregada, e caprichoso como é, passou uma graxa e ela ficou nova!  E não cobrou nada...
  Comecei então a trabalhar de botina!  Nossa casa era a maior e mais bonita da rua, alpendre, sala, cozinha, dois quartos, banheiro, e área com cisterna dentro e girau... Fiz um fogão caipira e reboquei tudo e passei cal rosado, virou uma tetéia, piso de tijolos rejuntados portas e janelas marrons, ficou nos trinques... Por fora tijolo, por dentro adobe que o Antônio Caetano me ajudou a fazer. 
  Não tinha energia, mas tinha lamparina...  Depois de pronta a cabana comprei os móveis, peguei um carrinho de uma roda só feito de madeira e fui à casa do meu pai e peguei minha cama com colchão e tudo e levei para minha casa.  Minha mãe perguntou:
__ O que é isso Pedro?
__ Tô mudando, se eu não casar fico por lá mesmo... e toquei o carro pra casa.
  No culto à noite levei uma das chaves da casa e passei para a Sônia e disse a ela:
__Amanhã vou trabalhar você vai com sua mãe lá em casa e olha bem tudo o que eu tenho se te serve,tudo o que tenho está tudo ali, nada mais...
  No outro dia fui trabalhar pensando o dia inteiro no que ia acontecer...  A tarde cheguei do serviço e quando abri a porta, vi a casa toda arrumada, ela havia limpado e forrado tudo, confesso que chorei... E pensei: é agora vou casar mesmo.
  Quando fui pedir o casamento levei a Bíblia debaixo de um braço e um 38 debaixo do outro braço, se o pai dela não deixar eu dou um tiro nele e fujo com ela.  Meu sogro não queria o casamento já que o meu nome não era bom na cidade... Mas ele apenas coçou a cabeça e disse:
__ Eu não queria não e você sabe, mas já que ta danado mesmo vocês casam... Mas não é para a Orsila mandar na sua casa!
__ Nem ela e nem o Senhor lá em casa mando eu!
  Nos casamos sobre a proteção de Deus pelo Pastor José Marcelino, o irmão Joãozinho (João Ribeiro) foi quem levou minha noiva ao altar e sua esposa quem arrumou a noiva, roupas e tudo.


  Casamos.  Que maravilha, eu e ela na nossa casinha, Quando entramos na nossa casa após o casamento ajoelhamos juntos e fizemos uma oração para Deus nos abençoar...
   Na primeira noite só havia um travesseiro o eu que havia trazido da casa da minha mãe.  No outro dia ela perguntou:
__ Pedro cadê os cabides para eu por a minha roupa no guarda-roupa?
  Comecei a chorar eu havia casado pobre demais nem tinha cabide! Passei a mão num facão e arame e fui fazer os cabides, e eles estão lá em casa até hoje junto com os novos, para sempre lembrarmos do quanto Deus já fez por nós.
 Bem no outro dia Sônia pegou um travesseiro emprestado da mãe dela.  No terceiro dia passei na loja do irmão João Ribeiro para comprar a prazo quatro capas para travesseiro e falei pra ela:
__Va lá na casa da sua mãe e faça quatro capas para travesseiro que eu vou buscar as painas no brejo.  Fui ao Brejo da Cerâmica e apanhei as buxas das taboas, desfiamos e fizemos travesseiros fofinhos e cheirosos. Na terceira noite já tínhamos travesseiros de sobra.  Como Deus é bom!
  Que maravilha era mais um lar para as senhoras da igreja visitar e orar, mas começou uma certa conversação e eu fiquei  sabendo, cortei um pedaço de papel e escrevi: “Aqui na minha casa não aceito fuxico”. Preguei na porta da sala com quatro pregos.
 Eu trabalhava como pedreiro, lavrador de dormente, e picador de lenha para a Cerâmica Cumari, trabalhava apenas cinco dias na semana.  No sábado era dia de jejuar.  Eu ia cedo ao açougue do Sr. Antônio Jorge, comprava meio quilo de carne moída, passava na Padaria do Sr. João do Hilário comprava quatro pães banana.  Em casa a Sônia fazia a carne, punha uma pimentinha, cebola, rachava os pães colocava a carne, fazia um litro de suco e juntos subíamos para o Morro da Mesa, íamos juntos orar e entregar o jejum ao meio dia.  Cada vez que íamos levantávamos uma pedra como testemunha de que estivemos lá...

Morro da  Mesa- Cumari Go
Uma das passagens bíblicas lidas por nós no Morro da Mesa

 
Morro da  Mesa - Cumari Goiás




  De lá íamos ao Ribeirão Pirapitinga com duas varas de anzol para pescarmos bagre lambari, timburé..., dois estilingues para matar inhambu... Tomávamos banho no Poço do Pé de Jambo, eu a balançava no cipó...

Ribeirão Pirapitinga
              

  Um pé de jambo doce não me sai da memória, enchíamos a capanga com suas frutas e demais frutas do mato: gabiroba, pitanga, pequi, mangaba, guapeva, marmelada preta, ingá, araticum, maria-preta, cajuzinho, pau-doce, melancia de tatu, mutambo,entre tantas frutas do campo e do cerrado... E vínhamos comendo no caminho, na tapera dos Naves tinha caju roxo... quanta gostosura...
Até hoje não esquecemos daqueles momentos simples, mas tão preciosos... chegávamos em casa cansados, mas felizes...
  No domingo irmã Maria Ribeiro mandava um de seus filhos levar para nós dois bifões acebolados já prontos que delícia! Deus provém! Éramos tão pobres, mas agradecidos a Deus à tarde o irmão José Recorde que era nosso vizinho, saía a porta da casa batia na barriga e dizia:
__Ei irmão Pedro, graças a Deus comi quiabo até estufar a barriga...
   E a noite lá ia ele com sua guitarra e eu com o meu violão louvar ao Senhor na igreja...

Nosso primeiro fogão a gás
   Bicicleta naquele tempo era artigo de luxo, e eu fiquei sabendo que perto de Catalão na Fazenda Quijila tinha uma para vender, da marca Sieger, importada.  Peguei uma bicicleta emprestada com meu irmão Lazim e fui até lá.   Comprei-a por mil e oitocentos cruzeiros e empurrei as duas bicicletas até Cumari cerca de uns 25 quilômetros...  Cheguei satisfeito, a lavei, remendei os pneus e no outro dia cedo fui buscar a carne e o pão para irmos para o Morro da mesa para orar.
   Quando estava passando na porta do Delfininho Lourenço (meu primo) ele me ofereceu um catira, ele ia mudar para Goiânia e tinha um fogão a gás novo com botijão pela metade e disse vamos trocar.
   Fizemos o negócio eu arrumei o Joaquim Fabiano com a carroça para levar até em casa.  Cheguei a pé e logo Joaquim apareceu e foi descendo o fogão, Sônia perguntou:
__ De quem é esse fogão?
__ È nosso – respondi
  Pusemos o fogão na cozinha ela até requebrava, parecia que nós havíamos ficado ricos afinal quase ninguém tinha fogão a gás na cidade, mas ficamos com medo de incendiar o fogão.

Nosso Primeiro Filho: Haroldo
  A vida parecia um paraíso, mas logo veio a luta a Sônia engravidou e fomos preparar o enxoval que alegria! Vai chamar Haroldo! Mas a Sônia levou um tombo e o bêbê virou, ficou atravessado, e o parto se antecipou, o bêbê era grande e a Sônia muito pequena, e eu não tinha dinheiro para levar minha Sônia para o Hospital em Goiandira para fazer uma cesárea.  O parto foi difícil e nós perdemos o nosso tão esperado filho.  Ainda hoje depois de 39 anos é difícil falar nisso... Lembrar de ver o nosso filho sendo levado para o cemitério... Como dói... Adeus Haroldinho... Minha Sônia quase morreu também e eu decidi: Não quero mais filhos! Doamos todo o enxoval e procuramos mais não falar no assunto... Guardando uma dor só nossa.
   Sônia queria voltar a estudar e eu não queria, tinha medo de que ela virasse as idéias. Mas minha mãe me convenceu e o meu irmão João de Deus emprestou o dinheiro para a matrícula dela.



Eu e minha mãe