Páginas

Mostrando postagens com marcador Capítulo 5. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Capítulo 5. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Capítulo 5


 O pesadelo
  Foi numa festa de Santa Cruz que eu senti algo estranho, tinha ido com o Sr. Bertoldo e seus filhos e filhas, ao meio dia soltavam foguetes depois da reza e todos iam almoçar, e como tinha muita gente estranha eu fiquei quieto não fui sentar-me a mesa, mas contaram para o Sr. Zeca Justino que eu estava com vergonha e ele veio e me levou para servir a comida, depois que me servi voltei a me encostar na cerca do curral onde estava antes.  Era uma cerca feita de lascas de aroeira. Mal me encostei na cerca senti um murro nas costas, foi tão forte que o meu prato voou longe jogando toda comida fora...  Fiquei assustado nem eu nem ninguém vimos nada! Eles disseram que lá era assim mesmo e mandaram que eu pusesse outra comida. Isso foi só o início do meu pesadelo...

Igreja de Santa Cruz (Capoeirão)

  No dia 13 de Janeiro de 1963, foi o dia mais horrível da minha vida.  Fui levar o meu sobrinho Nivaldo (filho da minha irmã mais velha Maria) para ver sua avó na Fazenda Lagoinha.  Na volta, passamos na casa do Messias (meu primo) chegando ali senti o mal da morte, desmaiei na porteira do curral, caí por terra e fiquei fora de mim por três horas mais ou menos.  Quando dei por mim, estava deitado no colo da Izelina esposa do meu primo. O Nivaldo e o João de Deus chorando.  Que tristeza para mim... Todas as pessoas da vizinhança preocupados... mas fomos embora...
  A partir daquele dia acabou minha alegria, sempre eu desmaiava.  Os médicos diagnosticaram: Epilepsia. Passei a tomar remédios controlados: Gardenal, Comital e tantos outros... Fiquei doente por cinco longos anos, no fundo do poço, numa amargura sem fim... Fiquei revoltado e cheguei por duas vezes a tentar o suicídio.
  Um dia fui para um lugar deserto chamado Poção e lá amarrei minha espingarda fazendo pontaria onde eu ia ficar, cortei um cipó e amarrei no gatilho para me detonar.  Na hora de morrer, tirei minhas botinas e resolvi rezar primeiro, fiz a oração do Pai Nosso e ouvi uma voz que me disse assim:
__ Não faça isso, você já perdeu tudo que tinha e agora vai perder também a sua alma.
  Desarmei a espingarda, dando o tiro para cima, calcei as botinas e fui embora triste, completamente triste.
  Sempre desmaiando perdi o prumo, fiquei sem destino, e passei a beber bebidas alcoólicas.
  Numa outra vez, pensei em pular na frente da locomotiva 444, mas na hora, ouvi novamente a voz dizendo: __ Pedro não faça isso, isto é pecado! E então desisti.
  E tomei uma decisão, falei para o Amauri (Tota meu primo, filho da tia Zulmira): __ Agora eu vou matar um, para eu ficar famoso.
Ele disse: __ Que isso Pedro, nossa família nunca fez tal coisa!
  O tempo foi passando, eu tinha dinheiro, tinha gado, tinha meus seis bois curraleiros pretos mascarados, mas tudo isso eu perdi.  Comecei a andar com maus elementos.
  Quando vieram de Minas a família do Neguinho Florindo eu me aliei a eles e formamos o bando dos quinze, e eu era o líder, eles me chamavam de Sócio.  Fizemos muitas proezas, até que o Ninos me disse:__ Vamos parar com isso.
  Agora, eu além de doente, já viciado na bebida, disposto a tudo com meus companheiros, não trabalhava mais, desde o dia 13 de janeiro de 1963 a 10 de outubro de 1967, descabriado, triste, perdido, mergulhado na amargura, andei muito procurando solução.
 De Curador em Curador, médico em médico, e nada de cura.  Até que um dia, em Araguari, Minas Gerais, No Hospital Santo Antônio, ouvi da boca do Dr. Belizário:
__ Pedro, não adianta mais, você não pode mais andar sozinho, vai morrer em casa, seus pulmões estão furados com tanto álcool, seu coração está tão fraco, como o motor de um jipe puxando uma carreta.   Eu fui embora.


O ladrão de lenha
  Depois que passei a sofre de epilepsia, eu não podia mais trabalhar, pois ficava desacordado por horas onde quer que eu estivesse...  Então resolvi comprar uma carroça para vender lenha junto com o meu pai, fizemos um deposito na beira do quintal, e logo começou a sumir lenha...  Resolvi descobrir que é que estava roubando nossa e acabar com tal ação.  Á noite finquei uma vara ao lado do monte de lenha e estendi um cordão de algodão, de forma que para pegar a lenha tinha que esbarrar no cordão. Pus um tiro mão travessa na espingarda a amarrei no pede manga com a boca para cima e passei o cordão no gatilho.  Quando foi lá pelas cinco horas da manhã veio o Hugo o meirinho da polícia (levava intimações) tirar leite na charqueada.  Ouvi o barulho de sua bota de borracha, e logo ouvi o tiro, ele havia ido pegar lenha como de costume para levar para uma senhora que ele gostava, e o tiro o fez se assustar e correr e eu corri para fora de casa para ver quem era.  E vinha voltando da Anhanguera a pé os senhores Geraldo Lizarda e Valdeberto Alves, que rapidamente disseram:
__ Oh, quem estava roubando lenha não é nós não é o Hugo!
  Nunca mais sumiu lenha da pia!

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Capítulo 4


Minha religiosidade
   Até ficar moço, fui Católico.   Fui Congregado Mariano, saudava com a saudação:
 __ Salve Maria!
  Depois fui Irmão Santíssimo e saudava:
 __ Salve Jesus!
  Mais tarde entrei na Congada com linhas cruzadas, e a nossa saudação era:
__ Saravá!
 Participei com o Sr. João Patrol de despachos em encruzilhadas, mas Deus não estava lá e a cura também não.
  Os padres Capuchinhos, Missão Nossa Senhora de Fátima queria me levar para Roma, mas minha mãe me fez desistir.
  Como é bom ser jovem, adquiri muitos amigos, às vezes bons, as vezes ruins...  Até hoje eu tenho um nome ruim devido o meu passado, mas Graças a Deus que eu não fiz mal a ninguém, nunca derramei sangue, nem estraguei famílias, mas andei com maus elementos que deixou em mim, esta nódea de mal: agressor, Pedro Cachaceiro, Pedro Garrucha, capitão de congo, Pedro viola etc...
  O indesejável Pedro do Urias deu muitos tiros, fez muito barulho, acabei com pagode na bala nos Tamarindos, mas mesmo assim o povo gostava de mim.  Mesmo sem juízo, cresci entre pessoas honestas e consegui superar as infâmias.
  Nunca pensei ser hoje o que sou passei por tanta coisa, mas Deus cuidou de mim.
  Eu, Pedro Antônio Lourenço da Silva, não tenho queixa em delegacia, nunca fui processado por nada, nunca fui testemunha de coisa alguma, sou um velho pacato, feliz com tudo o que Deus me fez.

Capítulo 3


Início Musical
  Estava com mais ou menos quinze anos quando tio Zeca Sidinês comprou uma vitrola com discos de 48 rotação e todas as tardes, íamos para a casa dele ouvir música.  Enquanto ele punha o disco e dava corda na vitrola tia Livertina amolava a agulha numa pedra de afiar faca. 

vitrola


  Assim Braz e eu aprendemos a cantar as primeiras músicas.  A primeira foi: “Tapera na beira da estrada” com Tonico e Tinoco.   Mas Braz adoeceu e teve que ser levado para a Araguari para operar a garganta e ficou sem poder falar ou engolir por um tempo.
  Papai então comprou para ele um cavaquinho de oito cordas, e ele muito se alegrou, mas ninguém sabia afinar ou ensinar a tocar o tal cavaquinho.
   Então apareceu o Sr. Herculano e nos ensinou algumas posições. Troquei uma espingarda com meu primo Jaime em troca de um violão de tarrachas  Mas o dia em que eu levei a espingarda, ele engoliu a lobeira!


lobeira ou fruta-do-lobo (Solanum lycocarpum)
 
  Mas o Joel do Sr. José pequeno tinha um violão de craveia de madeira, e eu catirei com ele, dei umas coisas em troca do violão.
  E começamos então a formar uma dupla, sem saber começamos a dedilhar, minha mãe nos dizia:
 ___Isso que vocês estão tocando é samba, é “meu limão, meu limoeiro”...
   Tínhamos na nossa família o tio José Emídio que tocava acordeom e também o Iba tinha uma pé-de-bode, mas que som bonito.  Meu pai fez uma festa no sítio voto para o Divino Pai Eterno que durou dez dias no último dia após a novena o Tio Zé Emidio trouxe a sanfona, mas meu pai não deixou tocar disse:
__Pode comer, pode beber, mas pagode, não, não quero saber de rela-rela...
   Minha mãe ficou contrariada...
   Tinha ali em Cumari um Senhor que se chamava Justiniano que trabalhava com lata e tinha um filho por nome de Argemiro, e havia dado uns passeios no México quando solteiro, depois de muitos anos apareceram dois filhos deixados no México que tocavam e cantavam muito bem, fizemos amizade e eles nos ensinaram um pouco mais, e Braz e Eu formamos a dupla: Louro e Lourenço.  Das 17 duplas que havia em Cumari tirávamos em primeiro lugar cantando musicas de: Torres e Florenço, Zé fortuna e Pitangueira, Tonico e Tinoco, Cantávamos: Moreninha linda, Curitibana, Abre a porta, Tristeza do Jeca, Chico Mineiro e outras...    Chegamos a escrever algumas músicas e cantar, mas queríamos saber mais...
  Tinha ali uma tapera assombrada do Sr. João Laura que teve que mudar devido as coisas sobrenaturais que aconteciam ali, e Braz e eu íamos a noite, entrávamos no porão e dizia:
__ Vem Capeta do João Laura ensinar nós tocar violão nós te dá a nossa alma...
  Morcego era praga, no escuro, mal víamos um ao outro, mas nada nos aconteceu, nada víamos, ou ouvíamos, e todos que lá chegavam, apanhavam ou viam alguma coisa... Logo depois o Dr. Artur médico da cidade montou no seu motor e foi lá para ver se realmente acontecia alguma coisa, pois ele não acreditava em casa mal assombrada.  Chegando ali ele foi recebido a Jenipapadas, jogaram jenipapo verdes nele e ele não via ninguém, voltou para Cumari todo roxo com o chapéu virado do lado do avesso na cabeça ele não viu quando o chapéu virou do avesso...

Genipapo (genipa americana)


  Mas conosco nada aconteceu pois Deus já havia nos escolhido e nos protegia...
    O Divo Ivo filho do Sr. Bertoldo e Dona Itelvina, sempre foi um grande amigo da família ele também comprou um violão e nós aprendíamos juntos, quando ele tocava:
___Tum dum dum...  – Olhava para sua irmã e dizia:
__Baba não Fatia...
  E até hoje quando alguém faz alguma coisa diferente ou bonita dizemos:
__ Baba não, Fatia...
  Chegou então a Cumari um senhor tintureiro: Vicentão que tocava muitos instrumentos: violão, viola, cavaquinho, banjo... E meu pai então o pagou para nos ensinar...
 Mandamos fazer dois ternos de casimira aurora, azul marinho e passamos a cantar em festas, casas de pagode...  Juntos com o sanfoneiro Geraldo Cor-de-Rosa...
  Mas eu fiquei doente, epiléptico, e o Braz passou a cantar com o Belchior, mas logo depois se casou com a irmã Zita.  Acabando assim a dupla mundana: Louro (Eu) e Lourenço (Braz).


 Antiga dupla: Louro e Lourenço, hoje Pastor Braz e Pastor Pedro Lourenço, hoje só cantamos pra Jesus e estamos os dois louros.



  Também toquei muito com o Sr. Tobias Evangelista o “Rei do Acordeom”, com Tatano Papine (acordeom), Jarbas Sebba (bateria) e eu no violão em muitas festas da Paróquia na época do Padre Gregoriano Santos Filho, ele gostava da música: “Montado a cavalo cortando o estradão assim era a vida que leva o peão...”
  O Senhor Messias Veríssimo (o Missião - nariz – de - bezerro) esteve em São Paulo fazendo aulas de dança e quando voltou me ensinou a dançar: bolero, tango, mambo... E aí virei pé-de-valsa...

Fazendo Artes depois de rapaz

  Quanto mais eu crescia, mais dava trabalho para meus pais, mais artes eu aprontava, e quando chegou de Minas a família do Sr. Neguinho Florindo eu me aliei a eles e tornei-me o chefe de um bando de quinze, meu nome então mudou de Pedro para Sócio, olha só que aprontávamos:
As formigas
   Um dia fomos num aniversário na Cerâmica na casa do Sr. Sebastião Curubino, o Zé do tio Virgílio e eu, mas achamos o pagode muito fraco e resolvemos acabar com ele... Eu sabia que debaixo do toco para entrar na sala tinha um formigueiro de formiga lava-pés... Então convidei o Zé para me ajudar a aluir o tronco e assim fizemos... As formigas não pediram licença tomaram conta da sala... Só se via as moças e mulheres correrem para o quarto... O pagode acabou em coça-coça (às vezes também acabávamos com os bailes jogando no chão pó-de-mico – pó feito da casca do pequizeiro).
 

formiga lava-pé
 
  Mas ainda não estávamos satisfeitos. Eu e Zé saímos na frente para fazer outra arte, no Córrego do Sr. José Agapito a enchente levou a ponte e colocaram uma pinguela.
  Para irem embora, todos tinham que passar pela pinguela... Com um pedaço de madeira arrastamos a pinguela e deixamos só a pontinha no barranco e amoitamos no capim colonião para ver o que acontecia...  Eram uns quatro metros de altura, o povo veio e foi passar o Sr. Geraldo Cor-de-rosa com o acordeom nas costas ia à frente seguido pelo Sr.Geraldo Lizarda, o Sr. Tamirim com os violões e mais um punhado de gente... Tão logo começaram a atravessar a pinguela caiu com todo mundo, saíram xingando de dentro do córrego, todos se molharam e Geraldo Cor-de-rosa logo disse:
__ Isso não passa de ser o Pedro do Urias, aquele miserável...
   Nós apenas ríamos escondido.

Pinguela



O burro do Cigano
  Tinha um cigano em Cumari muito amigo do tio Delfino, o Sr. Benedito, um dia ele foi passear na Matinha onde morava o meu tio onde nós plantávamos roça, e deixou o burro amarrado no curral dentro do barracão, e nós estávamos apanhando laranjas: Eu, Braz e o Vardim.
 E eu tive uma idéia e disse:
__ Vamos fazer uma arte?
 __ vamos – responderam de pronto – o que?
__ Vamos amarrar o burro do Benedito na cerca do curral.
  Toparam.  Pegamos o laço do vôvô Lourenço, emparelhamos o burro na cerca de tábua e arroxamos o bicho, até que ele ficasse de pés no ar, pendurado e depois demos o fora.
 O Sr. Benedito tomou café e quando resolveu ir embora foi pegar o burro no curral, o burro estava gemendo... Ele disse:
__ O que é isso? Meu burro está quase morto de tão arroxado!
  Não tiveram como desatar o laço, pois havíamos feito xixi no nó e o nó não soltou e tiveram que cortar o laço do vôvô e tio Delfino ficou furioso.


burro ou jegue